17/06/2013
Parabéns a nós
...sessenta mil visitas....que grande responsabilidade, assim de repente senti-me como o professor no primeiro dia de aulas frente a uma turma de 30 miúdos (se calhar ao dia de hoje este não será o melhor paralelismo, mas é o que se arranja). Por isso, obrigadinho aos que nos visitaram, aos que deixaram mensagens e aos outros que preferiram a visita anónima. Prometemos continuar com o nível de inconsistência a que já vos habituámos. (eu podia comemorar as 200 mil visitas mas como não sei se chego lá achei melhor lançar já os foguetes :D)
07/06/2013
A preto e branco
"Isto não é um blogue. É assim um filme entre o Fellini e os filmes de terror de 4ª categoria" Porque não escreves coisas mais alegres, mais animadas? Sim porquê? Que raio hei-de responder se dentro da minha cabeça os filmes são mudos (por acaso não são que eu discuto imenso comigo mesma cá dentro...e no chuveiro...e no metro... e quando conduzo...mas por enquanto só mesmo em pensamentos...por enquanto), a preto e branco e contam histórias dramáticas onde há sobreviventes mas que estão amputados? se calhar era mudar de corpo, ou de memória, sim era melhor mudar de memória. Mas por agora (quiçá para sempre) só escrevo sobre a noite, e o cinzento e o peso, sobre os dias que fogem. Mas também escrevo sobre o amor. Ah...mas sobre "amores dramáticos!", dizem. Pois, é o hábito :)
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amores,
desilusões
03/06/2013
Life is a beach
Estava fria a água. Não passámos da linha delineada a espuma moribunda, bem para cá dos surfistas em fatos de neoprene e as adolescentes esguias que se lançaram às ondas em mergulhos elegantes. O sol quente e luminoso fez-me esquecer as cicatrizes, e as dores dos dias passados, e os anos que se contam nas estrias finas de que só eu conheço o mapa. Ficámos ali um segundo, uma eternidade, no regresso aos 27 anos passados, ora ligadas, ora distanciadas por fronteiras e clima. Tantos anos nos juntam e ainda assim esqueço-me de como fomos. Ou melhor, vejo apenas desses dias distantes, o nosso retrato a sépia. Ali, nós de costas deitadas na areia vigiadas por olhos que já foram nossos. Depois, noutra fotografia de outro tempo tempo, um grupo sentado, de óculos escuros e cabelos açoitados pelo vento frio da Ericeira. E agora, já somos só duas. Mas ainda assim, enquanto percorremos a linha de água, naquela bruma que o sol nos provoca no olhar, por entre poças de água mole e meninos a correr, consegui escutar, um rumor dos dias de antes.
30/05/2013
Touché!
Mamma said lift your head from the sieve of your hands
Mamma said eventually this hurting will end
But the shock waves on my bones will linger
Like the ghost of you here in my bed
When I was lost you thought me a beautiful find
Sometimes I think of you sleeping, so sleep for a while
I find myself asking, "Who'd do this to love?"
And the white shouldered mountains, they pointed above
Lord, you just dropped me here by the side of this road
Out here's too cold and I don't want to walk it alone
I got a bottle of your blood inside me
And an old beggar's prayer on the tip of my tongue
Mamma said lift your head from the sieve of your hands
Mamma said eventually this hurting will end
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eu
14/05/2013
Viagens da minha vida (3)
Três semanas de camião TIR. Foi talvez a mais longa das minhas viagens reais. Três semanas entre Lisboa-Barcelona-Lisboa-Madrid-Lisboa-Pamplona-Lisboa-Sevilha-Lisboa....
Esta viagem ió-ió, com o meu irmão mais velho aos comandos do camião foi um passo de gigante na minha passagem da idade ingénua à idade da razão. Os dois, fechados num cubículo, ao som de Rolling Stones, falámos como talvez nunca até então. Tinha 26 anos e acabava de me estrear nas lides da imprensa. Tinha duas décadas de vida e um peso centenário a pender-me sobre os ombros. E tinha, felizmente, este irmão mais velho, tão gentil e sereno, que conhecia a raiz dos meus silêncios. Era Verão, e a imagem que mais recordo é a das minhas pernas flectidas e dos pés apoiados no tablier, uma nuvem de fumo de SG Filtro, e as nossas cabeças a abanar furiosamente ao som de "I can get no satisfation". Depois à noite, no beliche, eu na cama de cima, ele na de baixo, e o silêncio do parque de viaturas cortado pelas nossas gargalhadas. O meu irmão mais velho, o meu pilar de sensatez, a mão que desde sempre me ampara quedas, falhanços e desgostos, o meu primeiro irmão, tomou para si a tarefa de me afastar fantasmas. Três semanas de camião TIR mudaram o rumo dos meus dias e voltaram a pôr-me na estrada da vida.
08/05/2013
O meu mundo não é deste reino*
Num tempo de outro mundo fomos felizes.
Espalhados por três pisos entre guerras de palavras e horas marteladas nas teclas dos computadores. Éramos muitos, nem todos amigos, mas as mesas do tasco em frente eram pequenas para o almoço comunitário. Da esquerda à direita, mulheres e homens, jovens ou nem tanto, vindos de tantos lados, éramos, ainda assim, um só corpo.
Num tempo de outro mundo, fomos felizes e não sabíamos.
Os dias ainda se dividiam em semanas que depois de completas terminavam em salário. As mesmas semanas que nos comiam as horas gastas em revistas, tantas que nem o 13 nos lembrava azar ou os dias anunciavam borrasca.
Num tempo de outro mundo fomos felizes com pouco e com tanto.
E não sabíamos, nem sonhávamos, que nos dias que haviam de chegar a revolta e o cansaço iam ser reis neste mundo de outro tempo.
30/04/2013
Viagens da minha vida (2)
Estreei a idade adulta com a
minha primeira viagem sem pais. Três
miúdas, rumo a terras de França, com destino a Arras. As portuguesas iam
engrossar a fileira dos aprendizes de arqueólogos que gastavam dias e mãos por
entre o pó e os escombros ardidos da cidade romana. E foi bonito de ver, as três portuguesas por entre tegullae e frescos, distribuídas por quadrados simétricos às voltas com o jargão francês e com baldes de terra. E num dia mais quente, que naquele norte o frio corre mesmo em Agosto, fomos de visita a terras vizinhas destruídas na I na II Guerras Mundiais. Recordo-me de uma carrinha velha, nós as três e o canadiano Dave, de nariz espetado no vidro a ver a paisagem de planície, manchada mais à frente por gigantescas crateras de bomba que o tempo tinha suavizado com vegetação verde. E depois, mais à frente, parámos para fazer a pé o gigantesco e silencioso cemitério de milhares de cruzes brancas encimado pelo monumento aos mortos tombados em combate, e o Dave a procurar um nome conhecido, e eu a segurar as lágrimas e a pensar que tudo aquilo era triste, tão triste. Tão triste quanto a resposta que me deu o arqueólogo quando lhe perguntei no palácio-museu, se as marcas na pedra da fachada das traseiras se deviam à corrosão. Ele sorriu, abanou a cabeça dizendo "Non, sont des trous de balle, les Allemands fusillaient les éléments de la résistance ici". Estreei a idade adulta em terras de França a ver o tamanho da morte e a agradecer, pela primeira vez, a paz.
26/04/2013
Ai os passarinhos, e o amor e cenas....
O próximo gajo que me vier falar da poesia da vida leva com uma esguichadela de Pattex tira-manchas num olho, seguido de um sonoro vai "mazé" lavar tectos qu'isso passa-te, pá!
Nota mental: ....nunca, mas mesmo nunca, mais voltar a fechar a porta da casa-de-banho enquanto tenho a porra da espuma espalhada no tecto....só voltei a ter olfacto e paladar seis horas depois de terminar a coisa......
25/04/2013
Que venham mais cinco
Encerrámos a festa com a tradição do passeio avenida acima, as mochilas semi-vazias, os corpos cansados e um sorriso ainda tonto na cara. Nas mãos os cravos já murcham mas seguem caminho a casa onde irão persistir durante dias e depois secar por entre as páginas de um livro grosso. Inaugurámos com os mais pequenos esta história antiga de descer a avenida ao som da Grândola, cadenciando o passo, que não há-de ser nem demasiado rápido nem lento demais. Os mais novos já sabem a letra da Grândola e cantam bem alto com orgulho na voz e nos punhos pequenos, mas já cerrados, que aprenderam a erguer. Os meninos descem a avenida de mãos dadas, num mar de gente que neste dia, neste momento único, é um mar de companheiros. E olho para trás, para esta família que somos, e sorrio porque sei que enquanto formos assim, enquanto houver mãos e vozes e gente como esta, Abril há-de nascer uma e outra vez. Até amanhã, camaradas.
25 de Abril, sempre!
Por mais que o cinzento se faça espesso e nos contamine os dias e a alma, por mais que os dias corram curtos para afagos e passeios, por mais que a vida se escoe em angústias e medos, por mais que nos fechem portas e ponham grilhetas aos sonhos, ainda assim, amanhã será Abril. Por mais gente que recue e negue, por mais que nos digam que não, por mais normas e impostos e ameaças, ainda assim, amanhã será Abril. E as miúdas hão-de acordar bem cedo ao som da Grândola, e das janelas do 11º andar com vista para o depósito de água hão-de soltar-se os acordes do Zeca e do Sérgio e do Zé Mário. E de cravo ao peito, encostado ao coração, iremos engrossar o rio de gente que enfeita a avenida. E repito, ano após ano, com as minhas filhas o ritual que me passaram o meus pais. Porque, por mais anos que passem, por mais desânimo e revolta que haja, amanhã, amanhã será Abril.
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25 Abril
22/04/2013
Viagens da minha vida (1)
Os destinos que me fascinaram não implicaram destinos exóticos, nem praias paradisíacas e muito menos resorts de muitas estrelas. As viagens que me marcaram, traçaram-me estradas no corpo, e na alma, e posso dizer que transporto em mim um imenso atlas onde os rios e as fronteiras são indeléveis. Essas viagens, as reais, as passionais, todas me acrescentaram, me fizeram crescer, me fizeram ser, o que sou.
A primeira viagem que me recordo mudou-me o destino, mudou-me de continente e afastou-me de tudo o que conhecia. Tinha seis anos e sei agora que aquela dor intensa que sentia, enquanto via os meus pais a ficar para trás, se chama desespero. Depois do abraço do meu pai, agarrei-me à mão do meu irmão mais velho com a força que só o medo de uma menina pode imprimir aos dedos. Dessa viagem, desse instante, ficaram-me as memórias do meu pai, e a minha mãe com o irmão pequeno ao colo, a acenarem lá longe, na varanda do aeroporto, enquanto os meus olhos se enchiam de distância. Essa viagem inaugural persegue-me até hoje, será por isso que poucas vezes digo adeus, prefiro um "até já".
18/04/2013
Nós, as partículas.
Se há coisa que a vida me ensinou é que não somos mais do que uma pequena partícula na imensidão do Universo. Hoje recebi um mail. De um amigo (acho que lhe posso chamar assim), que conheço apenas virtualmente, mas que me fala do que verdadeiramente importa. Temos muito para nos encontrarmos em pontos opostos do pensamento e no entanto estamos tão próximos, e hoje recebi um link para este vídeo (e para um post) e de repente a imensidão do que me preocupa ficou reduzida a um "pálido ponto azul". Às vezes é preciso uma voz diferente que nos relembre o caminho. Obrigado.
15/04/2013
Alice, in horrorland
Nota:...sim, eu vi MESMO este episódio :), que querem gosto de coisas a jorrar sangue e cabeças cortadas :D
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eu
12/04/2013
Monólogo
Resisto a trilhar o mesmo caminho, em fazer mais do que a metade que me compete. Medimos forças e vontades, certo? Pois...mas eu tenho uma certeza, a de não voltar a cair, pelo menos, no mesmo buraco escuro por onde andei. E se há coisa que aprendi é que o passar dos dias não alivia, só torna dormente, a realidade, mas ainda assim, o passar do tempo ajuda a dobrar uma esquina, e depois outra e outra ainda... Deste vez faço só metade do caminho, está bem? Porque já passámos o tempo dos cavaleiros andantes e meninas frágeis, ou se calhar não, invertem-se os papéis, e as meninas frágeis sabem manobrar sabres e os garbosos cavaleiros têm medo do fogo. E eu de medos estou cansada e gasta, e jogos de cavalaria também passaram, literalmente, à história. Chegou outro tempo, o da conquista, onde não se reclamam prémios, ganham-se com esforço e com vontade. Get it?
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eu
11/04/2013
Espanta fantasmas
A tristeza dos dias ameaça engolir-me e eu, num movimento primário de pura sobrevivência, fujo. Para as linhas do livro companheiro de viagem, para o cartaz de cores garridas que oferece a dádiva de meia dúzia de quilos perdidos sem esforço, para o vizinho de carruagem que marca o ritmo da música com o bater de pé, para as mãos do bebé que ao colo da mãe ensaia os primeiros gorjeios, para a montra de sapatos que anuncia a chegada de dias quentes e promessas de Verão, e para a música com que preencho o vazio dos sentidos. Estou "On the top of the world" embora de cabeça para baixo, e grito e esperneio por dentro nesta armadura perfeita e polida com que venço os dias.
09/04/2013
Do adeus e outras histórias por contar
A primeira pessoa que me morreu, ainda hoje cá vive, entre as costelas, nos sonhos, em todas as velas que acendo em cada igreja onde entro e onde sou, fatalmente, atraída pelas chamas quentes. Tinha 15 anos, ele, e eu apenas 14. Morreu num dia de Inverno debaixo de um eixo de rodas, num pulo, num instante, num segundo, eternizado na adolescente que guardo no imenso saco de memórias que não consigo largar. Tinha apenas 15 anos de vida e todo o cansaço de um homem velho, e o desgosto e a mágoa da gente crescida. Descia todos os dias a avenida a arrastar ténis e mochila, com os punhos fechados dentro dos bolsos, e sorria-me. Não fazia parte do grupo porque não pertencia a lado nenhum, mas cabia-me no intervalo entre o pescoço e o ombro, onde me depositava beijos macios e quentes. Esperava por mim à terça-feira, na esquina do café, encostado ao mármore sujo e então descíamos a rua, lado a lado, a minha mão na dele, e o coração num sobressalto. E um dia, morreu.
O R. foi o meu primeiro poeta, provavelmente, o meu primeiro amor, inevitavelmente, o mais breve. Tal como à minha avó, não lhe disse adeus. Tal como a minha avó deixou-me uma herança pesada e doce e triste que transporto nos dias para que não me esqueça de quem sou.
O R. foi o meu primeiro poeta, provavelmente, o meu primeiro amor, inevitavelmente, o mais breve. Tal como à minha avó, não lhe disse adeus. Tal como a minha avó deixou-me uma herança pesada e doce e triste que transporto nos dias para que não me esqueça de quem sou.
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